Por Juliana Maffia


Até a hora que havia escrito esse texto, Cisne Negro, de Darren Aronofsky, não havia ganho nenhum Oscar. Colocaria minha mão no fogo dizendo que ele não iria ganhar, porque o filme é surreal demais para ser favorito da academia (velha e previsível). De qualquer forma, Cisne Negro me surpreendeu e por isso merece estar na Matraca Cultural nessa segunda-feira.

A história de uma bailarina que finalmente consegue um papel cobiçado, o papel principal no balé O Lago dos Cisnes. Inicialmente, Nina (Natalie Portman) é perceptivelmente uma bailarina mediana, que aplica todos os passos com perfeição, mas lhe falta alma e sentimento. Apesar disso, Nina consegue o papel e começa se preparar exaustivamente para viver os dois cisnes no balé. A dançarina tem uma relação completamente infantilizada com sua mãe, que ainda cuida de cada detalhe da sua vida. A menina exala pureza e sua maior dificuldade é viver o papel do cisne negro, um personagem denso e cheio de sentimento. A trama do filme se resume na busca incessante de Portman pela perfeição e as consequências disso.

Aos poucos, o filme vai se transformando e nos leva em uma viagem que para alguns não era esperada, especialmente para aqueles que desconhecem o trabalho do Aronofsky. Alucinações e situações fora do comum começam a cercar Nina e o diretor nos faz acreditar em todas as coisas pelo qual ela passa. Tudo o que é vivido pela bailarina é tomado como verdade, não há dúvida de que Nina realmente esta sofrendo transformações por causa do papel e, aos poucos, percebemos que a menina se transforma em cisne negro. Seus hábitos, seu humor, mudam diante dos nossos olhos. E a dúvida, durante o filme, é clara: Nina imagina tudo isso ou realmente está vivendo aquela transformação?

Aronosfky não é um dos meus favoritos e nunca tive medo de dizer isso. Mas fiquei impressionada com as cenas das danças, me arrepio até mesmo ao ver os trailers. A câmera seguia os passos de Portman como se dançasse junto a ela, sem medo de balançar e chacoalhar, seguindo a bailarina pelo palco, como se toda a platéia dançasse o balé dos cisnes. A construção da história foi muito bem feita também, o paralelo entre a história do balé e a transformação da bailarina fica claro, mas não explicito. Nina precisar ser o cisne, viver o que ele viveu, para dar seu máximo na apresentação. Aronofsky também faz uso de clichês fortes para chamar a atenção do público. A representação da imaturidade e da rebeldia da bailarina em relação a mãe, é um exemplo deles. Mas, de qualquer forma, eles não estragam a história, nem seu poder, e esses recursos são comuns do diretor.

Com ou sem Oscar a questão é que o filme deve de ser visto. É preciso estar preparado para ir ao cinema, não é uma história água com açúcar de auto-superação com um final feliz. É uma alegoria da realidade vivida por essas bailarinas, do sofrimento e estresse pelo qual elas passam. Mas, Cisne Negro é, de qualquer forma, uma bela obra de arte e merece ser assistida como tal.

Obs: Portman ganhou o Oscar de melhor atriz pelo filme, estatueta mais do que merecida.

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