Por Marco Barone

Com certeza você já viu alguém fazer, aliás, já deve inclusive ter feito (atire a primeira pedra aquele que nunca fez). Antes de beber o primeiro gole em uma pinguinha (ou algum destilado mais forte), dá uma guinada no copo e joga um pouco da bebida no chão. As pessoas dizem que isso é dar o “primeiro gole para o santo”. Apesar de prosaico, o costume tem uma origem e uma razão coerente. Vamos a ela!

Mas antes, só para matar outra curiosidade: você sabe por que a pinga se chama aguardente?

A origem é do tempo da escravidão e surgiu totalmente sem querer (como todas as grandes descobertas da humanidade). Antigamente, no Brasil, nas fazendas de cana, para se ter o melado os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Um dia, um grupo de escravos, cansado de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, simplesmente parou e o melado desandou. Para não sofrer as consequências do erro, guardaram o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, o melado azedo estava fermentado. Imagina se eles conhecessem química…

Ainda para não pagarem pelo erro, misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. O “azedo” do melado antigo nada mais era que álcool, que foi evaporando e formou no teto do engenho pequenas gotas que pingavam constantemente. Era a cachaça já formada que pingava. Daí o nome ‘PINGA’. Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ‘ÁGUA-ARDENTE’.

Mas não foi só sofrimento. Essa água também caiu nos seus rostos e escorreu até a boca. Os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo. Depois de um tempo os senhores descobriram a “mágica” e começaram a produzir a tal bebida.

Já o costume de se dar o primeiro gole ao santo vem da Europa. Na Idade Média o povo já não tomava mais as bebidas em canecas de barro, mas de cobre ou estanho. A fermentação do vinho nessas canecas produziu um resíduo que muitas vezes era mortal. Para evitar esse efeito desastroso, o beberrão sempre jogava a metade da caneca fora para limpar a bebida das impurezas. Como o Brasil foi colonizado por portugueses, que trouxeram o “gole ao santo”, aqui também se adaptou o costume para a pinga. É claro que também se limpavam as impurezas, mas era mais por uma questão de mania, do que por efeito prático. Dizia-se que, assim, quem ficava bêbado era o santo e não quem bebia. Se você viajar por esse “Brasilzão” e parar em um desses botecos da vida, verá muitas pessoas tentando deixar um santo bêbado.