Etimologia, palavra de origem grega, é a parte da gramática que trata da história ou origem das palavras e da explicação do significado de palavras por meio da análise dos elementos que as constituem. Ou seja, pela etimologia, sabemos exatamente o que estamos dizendo.

Como este espaço se refere à cultura inútil, àquela informação que é bom termos sempre que não temos o que falar. Em uma conversa, sacar uma informação que poucos sabem, dá certo prazer. O tema que vamos abordar na coluna desta semana é exatamente a origem de algumas palavras. Algumas daquelas que falamos constantemente, mas não temos a menor ideia de como ou de onde elas surgiram. Um alerta antes que alguns dos nossos cativos leitores reclamem: este espaço apenas relata uma ou mais versões para um fato, mas podem haver outras.

Favela – origem do nome “favela” remete à Guerra de Canudos. Na Caatinga nordestina é muito comum uma planta espinhenta e extremamente resistente chamada “Favela” () que produz óleos comestível e combustível. Entre 1896 e 1897, liderados por Antônio Conselheiro, milhares de sertanejos cansados da humilhação e dificuldades de sobrevivência num Nordeste tomado de latifúndios improdutivos e secas, criam a cidadela de Canudos, no interior da Bahia, revoltando-se contra a situação calamitosa em que viviam. Lá, muitos sertanejos se instalaram nos arredores do “Morro da Favela”, batizado em homenagem a esta planta. Após dizimarem os revoltosos, os soldados republicanos voltaram ao Rio de Janeiro, deixaram de receber seus soldos, e por falta de condições de vida mais digna, instalaram-se em casas de madeira sem infraestrutura em morros da cidade. O primeiro local foi o atual “Morro da Providência”, ao qual passaram a chamar de “favela”, relembrando as péssimas condições que encontraram em Canudos. Esse tipo de sub-moradia já era utilizado há alguns anos pelos escravos libertos, que sem condições financeiras de viver nas cidades, passaram também a habitar as encostas. O termo pegou e todos estes agrupamentos passaram a chamar-se “favelas”.

Forró – há muita controvérsia quanto à origem dessa palavra, mas a versão mais verossímil, apoiada pelo historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo, é a de que Forró é derivado do termo africano forrobodó e era uma festa que foi transformada em gênero musical, tal seu fascínio sobre as pessoas. Há também uma versão popular que associa a origem da palavra “forró” à expressão da língua inglesa for all (para todos). Para essa versão foi construída uma engenhosa história: no início do século XX, os engenheiros britânicos, instalados em Pernambuco para construir a ferrovia Great Western, promoviam bailes abertos ao público, ou seja, for all. Assim, o termo passaria a ser pronunciado “forró” pelos nordestinos. Outra versão da mesma história substitui os ingleses pelos estadunidenses e Pernambuco por Natal do período da Segunda Guerra Mundial, quando uma base militar dos Estados Unidos foi instalada nessa cidade. Apesar de bem-humorada, não há sustentação para tal etimologia do termo, pois em 1937, cinco anos antes da instalação da referida base, a palavra “forró” já se encontrava registrada na história musical na gravação fonográfica de “Forró na roça”, canção composta por Manuel Queirós e Xerém.

Paquete – essa é uma expressão que só os mais velhos ainda usam. “Estar de paquete” é “estar menstruada”. A origem remonta ao Brasil Colonial para uma espécie de navio que vinha da Inglaterra. Paquetes, ou packet boat, eram navios que faziam travessias regulares levando encomendas (pacotes) e correio da Europa para o Brasil. Tal referência se deu por comparação entre o tempo exato de 28 dias para realizar o trajeto entre o Rio de Janeiro e Liverpool, no Reino Unido, por essas embarcações e o ciclo menstrual.

Salário – vem do latim salarium argentum, que significa “pagamento em sal”. Na Roma Antiga, o pagamento dos soldados era feito com sal, pois, à época, o sal era uma iguaria muito cara, que podia ser trocada por alimentos, vestimentas e outros bens.

Tratante – tratante, no português antigo, era apenas o que trata (de negócios, de papéis); mas a falta de honestidade de certos tratadores e negociantes foi responsável pela deterioração do sentido para canalha, patife, velhaco.

Vilão – “Vilão” era apenas o aldeão, o habitante da vila, veio a significar homem grosseiro, perverso, infame. Certamente há de ter influído a associação (indevida) com vil. E, na maneira de ver dos aristocratas, dos nobres, dos homens da cidade, só os da aldeia, da vila, do campo são grosseiros, capazes de praticar ações vis.

Em outras ocasiões retomarei o assunto…

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