Por Marco Barone

Quem nunca teve curiosidade de saber de onde vem as comidas que saboreamos diariamente? As origens de alguns pratos são verdadeiros tratados antropológicos, pois muitas revelam costumes e histórias de civilizações. Como este espaço não tem essa pretensão, mas de matar curiosidades, vamos tentar colaborar com a curiosidade alheia. É importante destacar que a maioria dos acepipes tem origem na necessidade ou na falta de alimentos. Os mais antigos “maquiavam” o pouco que tinham com misturas agradáveis ao paladar.

Por exemplo, a culinária francesa é mundialmente conhecida por seus temperos e sabores diferentes. Sabem a origem disso? Pura ilusão ao paladar para enganar sabores ruins. Em tempos antigos o frio era inclemente e a caça escassa. Por isso, era normal guardar a caça nas casas. Como não havia o recurso de um freezer à época, as carnes eram guardadas em despensas, geralmente feitas no chão, dentro das casas. É claro que essas carnes estragavam, mas ninguém podia se dar ao luxo de jogar comida fora. Solução: encontrar maneiras de “esconder” a podridão e o gosto ruim que vinha do prato. Por isso, o esmero no preparo dos alimentos, o uso de temperos exóticos (lembram das especiarias da Índia?).

Apesar de pastel ser mais gostoso feito por japoneses na feira, o prato é típico da China, onde a massa foi inventada. Da mesma forma, o espaguete e a pizza italianas são de lá. Foi o mercador Marco Polo que, introduziu a massa na Europa. Outra coisa, o arroz é cultivado há mais de 7 mil anos por chineses e indianos. Porém, só apenas há 800 anos é que o arroz foi trazido da Ásia para a África e Europa pelos árabes. A batata tem origem peruana. Foi Pizarro e os soldados espanhóis, quando da conquista do Peru, que descobriram uma planta que alimentava os índios há muito tempo. Inicialmente considerada venenosa, a batata começou a ser plantada, com alguma regularidade, em Trás-os-Montes, pouco depois do século XVII.

Esta eu soube recentemente. Você imagina por que existem tantos doces portugueses à base de gema de ovos? Nos antigos conventos, as freiras usavam claras de ovos para engomar roupas. Para evitar o desperdício de alimentos, as gemas precisavam ter alguma utilidade. Com isso, foram criados os famosos doces portugueses: Quindim, Barriga de Freira, Fios de Ovos, Pastel de Santa Clara, Pastel de Belém, Toucinho do Céu etc.

A feijoada, diferentemente do que se imagina, não era feitas dos os “restos” dos porcos fornecidos aos escravos pelos senhores de engenho. É um prato com origem no Norte de Portugal, e que hoje em dia constitui um dos pratos mais típicos da cozinha brasileira. Lá, o guisado com carne é cozido com feijão branco no noroeste (Minho e Douro Litoral) ou feijão vermelho no nordeste (Trás-os-Montes), e geralmente inclui também outros vegetais (tomate, cenouras ou couve) juntamente com a carne de porco ou de vaca, às quais se podem juntar chouriço, morcela ou farinheira. No Brasil, é feita da mistura de feijões pretos e de vários tipos de carne de porco e de boi, e chega à mesa acompanhada de farofa, arroz branco, couve refogada e laranja fatiada, entre outros ingredientes. Em Portugal, esta versão da feijoada é conhecida como “feijoada à brasileira”, sendo também comum encontrá-la nos cardápios dos restaurantes portugueses, para além das feijoadas portuguesas.

Voltando ao tema ovo. A origem da sempre gostosa omelete (ah, “omelete” é substantivo feminino) também é interessante. Acredita-se que a omelete surgiu na antiga Pérsia. Ovos batidos eram misturados com ervas picadas, fritos até ficarem firmes, e depois cortados em pedaços, para formar um prato conhecido como “kookoo”. Especula-se que tal receita alcançou a Europa pelo Médio Oriente e pela África do Norte, onde sofreu adaptações e originou a “frittata” italiana, a “tortilla” espanhola e a “omelette” francesa. Na França, sua criação é atribuída a Annette Poulard, em 1888, no Monte Saint-Michel, na Normandia. Ela elaborou uma refeição nutritiva e fácil de preparar para os famintos peregrinos que chegavam ao Santuário de São Miguel. Hoje, na entrada do local, existe o restaurante Mére Poulard.

Um doce genuinamente brasileiro, o brigadeiro, também sua origem em uma homenagem ao brigadeiro Eduardo Gomes, liberal, de físico avantajado e boa aparência. Nos anos de 1946 e 1950, o militar se candidatou à presidência da República pela UDN. O candidato conquistou um grupo de fãs do Pacaembu, bairro de São Paulo, que organizaram festas para promover sua candidatura. O doce foi criado durante a primeira campanha do candidato à presidência, pela conservadora UDN, logo após a queda de Getúlio Vargas. A guloseima feita de leite, ovos, manteiga, açúcar e chocolate tanto agradou que, numa das festas de campanha, foi feito o doce para arrecadar fundos. Há outras versões bastante similares a essa sobre a origem do nome do doce: mulheres do Rio de Janeiro, engajadas na candidatura de Eduardo Gomes, faziam “negrinhos” que vendiam para ajudar o fundo de campanha; outros diziam que Heloísa Nabuco, de tradicional família carioca que apoiava o brigadeiro, criou um tipo de doce, ligeiramente diferente da versão atual, e o denominou com a patente do candidato preferido. Como as festas dos correligionários e cabos eleitorais eram muito disputadas pela população, estes logo começaram a chamar os amigos para irem comer o “docinho do Brigadeiro”. Com o tempo o nome de “brigadeiro” acabou sendo dado ao doce (mais tarde feito com leite condensado). Ah, o brigadeiro perdeu aquela eleição para o general Eurico Gaspar Dutra.

Este assunto rende ainda mais textos. Vou me preparar bem esta semana, me alimentando bem, e trago mais informações úteis para conversas informais na próxima semana. Cuidem bem do estômago.

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