Por Renniê Paro

Já ouvi falar de peças que interagem com o público, mas nenhuma tão direta e intensamente quanto Hysteria, do Grupo IXI de Teatro.  Apresentada na Vila Maria Zélia, a primeira vila operária do Brasil, em meio à construções de época (algumas em péssimo estado de conservação), e uma bucólica praça, a atmosfera da peça começa ainda do lado de fora da antiga construção.

Homens e mulheres são separados. Nós (as mulheres) somos encaminhadas à frente de uma porta de madeira que aparenta estar lacrada. De repente, ouve-se o som de janelas rangendo ao se abrirem e uma mulher com os cabelos desgrenhados e roupas de algodão nos observa e se afasta. Mais um segundo e a grande porta se abre com uma segunda personagem que nos convida a entrar no grande salão. Observo que os homens estão todos sentados na arquibancada, como meros espectadores. Ao contrário, todas as mulheres sentam em círculo no palco. É engraçado observar a tensão e curiosidade no rosto de todas as presentes.

Bolsas e quaisquer outros acessórios são obrigados a serem deixados sob os bancos de madeira. Para as menos atentas, o espetáculo já começou e todas nós somos personagens. Hysteria conta a história da mulher brasileira no início do século XIX, quando a sociedade tentava moldá-la à sua conveniência e aquelas que não seguiam suas ordens eram consideradas histéricas e, consequentemente, enclausuradas em hospícios.

O grande salão em que estávamos era um desses tristes locais, o Hospício Carioca Pedro II (Praia Vermelha). São apresentadas as trajetórias, histórias, alegrias, sonhos e frustrações dessas mulheres. Não somos ali meros objetos cênicos. As personagens nos indagam o tempo todo nos forçando a responder questionamentos. Somos convidadas a levantar, dançar, tocar e olhar nos olhos umas das outras. Uma experiência única! Costumo frequentar e assistir aos mais diversos gêneros de espetáculos, mas ainda não tinha passado por nada parecido.

Abdicando de holofotes e sonoplatia, Hysteria se passa apenas com a luz diurna e a voz das personagens. Não vou me estender contando os detalhes, mas preciso compartilhar com vocês o momento em que me dei conta da essência da peça. As personagens começam a dançar entre elas. Em seguida convidam algumas de nós a levantar e dançar com elas. A sequência de ações é tão rápida que quando percebi estávamos todas em pé, de mãos dadas em uma grande roda, gritando juntas. Um verdadeiro momento de histeria. Mágico!

Ah….outra coisa super importante. Essa semana está rolando a promoção “Seu momento de Hysteria”. Siga-nos no twitter @matracacultural e participe. Uma grande chance de participar dessa experiência única.

Para finalizar, uma frase do espetáculo que me tocou: “A mulher nasceu para sentir. E sentir é quase um estado de histeria”.