Por Renniê Paro

Fotos: Divulgação

“Ainda que um marido vivesse mais de cem anos nunca poderia saber nada sobre a verdadeira existência de sua mulher. Poderá conhecer o mundo, o universo, mas nunca essa pessoa com a qual ele convive”. É com essa frase que paramos para refletir sobre uma das melhores peças que já assisti. Cruel, com direção de Elias Andreato, que traduziu e adaptou o texto Creditors (“Os Credores”), de August Strindberg, reúne no palco os atores Reynaldo Gianecchini, Maria Manoella e Erik Marmo.

Uma mistura de drama e suspense. Entre outras, as características dos personagens mesclam ingenuidade, manipulação, egocentrismo e soberba. A história mostra relações de amor e amizade, ódio e paixão, volúpia e desconfiança, entre outros sentimentos inerentes à natureza humana.

Ali, sentada sozinha no escuro do lindo teatro FAAP, percebi o quanto é preciso que sejamos sinceros com a vida, com a gente mesmo. E o quanto é difícil e complexo esse processo de despir a alma e encarar nossos pesadelos. Sabe aquelas sensações e histórias que guardamos em uma gavetinha lááá no fundo da memória e fingimos que elas não existem? Pois é…

A violência psicológica é predominante durante o espetáculo. Cruel apresenta uma destruição da mente pela mente. Movido pelo sentimento de vingança, Gustavo (Reynaldo Gianecchini) é o vetor da história. Muito perspicaz e orgulhoso, ele desenha os acontecimentos e os conduz à direção em que premedita. Adolfo (Erik Marmo) é um pintor inseguro, facilmente manipulado, mas sutilmente forte. Casado com Tekla, (Maria Manoella), uma bonita, sedutora e sagaz escritora, cai na armadilha do egocêntrico e cruel Gustavo, ex-marido de Tekla. Ela, objeto de desejo dos dois, de formas completamente opostas, apesar de sua frieza e inteligência, é vitimada pela articulação mal intencionada de Gustavo.

Uma verdadeira trama que nos deixa angustiados para saber o desfecho! No palco, mais do que ações e gestos, as mentes se enfrentam. A mais ardilosa vence a batalha. A mais ingênua perde a guerra, pois é considerada frágil e destrutível, assim como em nosso dia-a-dia. Com isso, é deflagrada uma corrente de forças, em que os personagens tentam ser vencedores de seus próprios conflitos. Cruel é, também, um xeque-mate a instituição do casamento. Falsos moralismos, conflitos entre um casal, a falta de respeito e consideração que se perdem no tempo.

Enfim, Cruel nos faz pensar que simplesmente não podemos subjugar os sentimentos e muito menos a inteligência dos outros. Aposto como muitos de vocês, assim como eu, irão adorar refletir sobre esses aspectos da alma humana.

O espetáculo está em cartaz no Teatro FAAP, de segunda e terça-feira, às 21h, até 04 de outubro. Portanto, ainda dá tempo de assistir a essa bela montagem.

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