Por Marco Barone

Todo mundo pode negar, mas quem não é supersticioso que dê um passo à frente. Em uma época de avanços tecnológicos quase que diários, em que a humanidade tem na ciência uma dinâmica de evolução, não dá para negar que a gente sempre tem um retrocesso e recorre a uma mania, um amuleto ou a uma mandinga para se proteger ou torcer para que alguma coisa dê certo.

Todos nós temos as nossas manias, as nossas superstições, mas existem aquelas que são universais, que o mundo todo conhece – com uma ou outra adaptação local. Mas qual a origem dessas manias? Será que elas tinham o mesmo significado quando nasceram que têm hoje?

Vale lembrar que há diversas versões para esses fatos ou costumes. É claro que cada um pode conhecer outra diferente das que colocamos aqui, mas é sempre uma curiosidade. Outra coisa comum em todas as origens é que o ato primeiro geralmente não tem relação com o costume posterior, o que virou a superstição.

Gato preto – na Idade Média se acreditava que os gatos pretos eram bruxas disfarçadas, por isso se diz que cruzar com um gato preto dá azar

Sexta-feira 13 – essa é da época do início do Cristianismo e faz referência à Santa Ceia. Na mesa havia 13 pessoas: os doze apóstolos mais Jesus Cristo. Como Cristo foi para a cruz numa sexta-feira, quando se juntam as duas coisas o azar vem em dobro

Figa – na realidade esse símbolo não tem uma origem relacionada à sorte, mas ao sexo. O polegar no meio dos dois dedos representa o órgão sexual masculino. Um símbolo de fertilidade que passou a ser adotado como sendo de sorte para ser usado contra o mau-olhado

Pé ou rabo de coelho – na Idade Média (sempre ela) era comum se dormir perto de coelhos, mas somente para se esquentar. Do calor veio a associação com a sorte. Como não dá para se andar com um coelho pendurado no molho de chaves, começou-se a usar partes do animal

Bater na madeira – para os celtas, as árvores eram moradia dos deuses. Batia-se nas árvores (depois, nos produtos feitos delas, como mesas e portas) para afugentar os maus espíritos

Entrar em algum lugar com pé direito – esse costume tem origem nos pescadores no século 19. Dava azar subir a bordo por bombordo, isto é, o lado esquerdo do barco, ainda que fosse incômodo fazê-lo por estibordo.

Abrir o guarda-chuva dentro de casa – os reis orientais e africanos usavam sombrinhas para proteger-se dos raios solares. Devido a sua conexão com o astro rei e porque também sua forma simboliza o disco solar, abrí-lo num lugar sombreado, fora dos domínios do Sol, era considerado um sacrilégio. Há outra explicação: na Europa os guarda-chuvas era usados quase exclusivamente pelos sacerdotes nos enterros, sem outro fim que se proteger das severidades do tempo

Ferradura pendurada na porta – como a ferradura é um símbolo da força do cavalo, ela pode ser associada a uma energia positiva. Além disso, virada para o lado direito e em posição horizontal representa o C, inicial de Cristo. Outra teoria diz que as bruxas em vassouras tinham medo de cavalos. A ferradura na porta sempre as assustava

Derramar sal – sinal de má sorte, só quebrada se jogar uma pitada acima do ombro esquerdo diretamente, pois é o lado onde o diabo aguarda o pecador. Isso pode ter origem na Grécia antiga, pois o achava que o sal podia cegar temporariamente os maus espíritos e o sal sempre teve um grande poder simbólico

Não passar embaixo de escadas – mais uma da Idade Média. Esta e outras crendices associadas às escadas estão relacionadas com o medo do cadafalso, aquele local onde se aplicava a forca aos condenados. Antigamente, devido à grande altura que este costumava ter, era necessária uma escada para colocar a corda do enforcamento na posição correta, bem como para retirar depois o cadáver do condenado. Qualquer um que passasse por baixo da escada corria o perigo de dar de frente com o morto. Daí vem a crendice

Cruzar os dedos – essa é usada para que um desejo se realize ou quando se conta uma mentira. O gesto evoca uma cruz e tem origem nos primórdios do Cristianismo. Acreditava-se que colocar o polegar sob os outros dedos ou fazer figa afastava os fantasmas e maus espíritos. Outras explicações: quando o cristianismo era ilegal, cruzar os dedos era uma forma secreta para os cristãos reconhecerem uns aos outros. Durante a Guerra dos Cem Anos, um arqueiro cruzava os dedos para rezar pela sorte, antes de atirar. Por fim há a teoria de que os dedos cruzados eram usados como um gesto para afastar as bruxas e outros espíritos malignos

Quebrar espelho dá sete anos de azar – para muitas culturas, como a grega, chinesa, africana e indiana, o espelho tinha o poder de confiscar parte da alma do usuário. Se o espelho fosse quebrado, a alma da pessoa iria ficar presa dentro dele

Dizer “Deus te abençoe” após um espirro – considerada uma resposta educada a um espirro, a frase “Deus te abençoe” é atribuída ao Papa Gregório Magno, que dizia para as pessoas que espirravam durante uma peste bubônica. Segundo a lenda, além de proteger contra a propagação da doença, a “benção” de alguém depois do espirro evita que a alma escape do corpo durante um espirro. Portanto, dizer “Deus te abençoe” era uma forma de acolher a pessoa de volta a vida

Trevo de quatro folhas dá sorte – a lenda diz que, quando Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden, Eva levou um trevo de quatro folhas, como lembrança de seus dias no Paraíso

Pôr a mão diante da boca ao bocejar – no passado (talvez na Idade Média, é claro), fazer o sinal da cruz diante da boca ao bocejar impedia que o diabo se introduzisse no corpo e estabelecesse nele sua morada. É por essa razão pelo que as mães fechavam a boca do bebê ou faziam o sinal da cruz diante dela quando o viam bocejar. Desse costume ancestral deriva o gesto atual de tampar a boca

Vestir-se de preto nos funerais – vale lembrar que esse é um costume ocidental, como manifestação de respeito para o defunto. Mas sua origem pode estar no medo ancestral dos vivos de serem possuídos pelos espíritos dos mortos. Assim, nos ritos funerários os homens primitivos pintariam seus corpos de negro para impedir, ao ficar camuflados, que a alma do falecido encontrasse um novo corpo onde assentar-se

Colocar flores nas sepulturas – outra que vem do medo dos espíritos e mudoiu com o tempo. A coroa circular, colocada sobre a tumba ou a porta principal do cemitério, encerrava simbolicamente o espírito e impedia-o de voltar

Jogar um pouco de terra no caixão antes de enterrar – Essa é uma crendice do Brasil colonial e há duas versões: pode ser que tenha relação com a Bíblia (“Do pó vieste e, agora, ao pó retornastes”) ou ainda relacionado com o costume de serem os parentes responsáveis pelo sepultamento e o fato de jogar terra seria uma forma de despedida

Vassoura atrás da porta para espantar visita – segundo o povo europeu, para afastar Silvanus – uma divindade campestre que se introduzia nas moradas campesinas para praticar pequenos e grandes malefícios e diabruras desagradáveis – três deuses rurais socorriam a família ameaçada. Bastaria o dono da casa dispor, em lugar visível, os três objetos representativos desses três deuses para fazer Silvanus fugir e não voltar mais. Esses objetos eram um machado, uma mão de pilão e uma vassoura. Dizem também que uma vassoura atrás da porta, atravessada e sempre invertida, espantava bruxas