Por Marco Barone

Os mais antigos sempre se referem à morte como a única certeza que temos desde que nascemos. Se é assim, por que a morte nos causa estranheza e até uma certa adminiração? Tudo o que cerca a derradeira hora é sempre envolto em mistérios e manias. Este post se refere a essas manias ou rituais. Como alguns povos encaram a última passagem e transformam o sepultamento em cerimônias.

E isso não é de hoje. Os antigos – dos egípcios aos romanos, dos gregos aos chineses – enterravam seus mortos para que a passagem fosse a melhor possível. Muitos povos, ainda hoje, guardam essas rituais.

Por exemplo, na Grécia e em Roma eram conhecidos os banquetes fúnebres, nos quais se ofereciam alimentos em nome do morto, chamados Lares, com a função específica de proteger a casa e interceder a favor de sua família perante os deuses. Os adeptos do Novo Testamento acreditam que, ao morrer, a pessoa encontra-se com Deus e que seus atos serão julgados. Para eles, existe o céu – um estado de felicidade – e o inferno, cujo fogo representaria os tormentos morais.

Ainda hoje, para os hindus, os rituais fúnebres são realizados por meio da cremação do corpo. Entre os índios brasileiros, existe a crença de que a felicidade da pessoa que morreu depende de seu rompimento definitivo com os laços terrenos. Algumas tribos queimam todos os pertences do morto, para que ele não tenha vontade de retornar.

Vamos a outros rituais conforme as religiões:

Budismo – Equipara a vida presente a uma situação de “sono”, motivada pela ignorância que mantém o homem inconsciente de sua verdadeira natureza e preso a um ciclo de renascimentos e mortes (tudo é transitório e interligado). Ao obter a “Verdadeira Sabedoria”, ele se liberta, alcançando o Nirvana ou estado de perfeição espiritual. Os budistas adoptam prioritariamente a cremação. Durante o luto é importante cultivar sentimentos de gratidão com relação aos familiares que se foram e aprender com o morto sobre a inevitabilidade da morte.

Cristianismo – Os cristãos crêem que após a morte o espírito vai para o céu ou para o inferno (os católicos crêem no purgatório), de acordo com os pecados que cometeu. Crêem no Juízo Final, quando os mortos ressuscitarão para uma vida eterna junto a Deus. Os rituais de morte e luto têm similaridades, incluindo: unção, velório, enterro e orações (cultos, missas).

Umbanda – Ao falecer um iniciado é necessário realizar as Obrigações de Desligamento e, quanto maior for o grau de importância dessa pessoa dentro do culto, maior e mais detalhada será a obrigação, que significa o desligamento do espírito da pessoa falecida com a vida material e terrena. Os cânticos que no lado dos Orixás são chamados de Erís, nos Eguns são chamados de ateté e são acompanhados ao som do tambor xôxo, não há utilização de sineta e nem de agê, a roda movimenta-se no sentido horário enquanto balançam-se os braços, os participantes usam sapatos, características contrárias às das obrigações para os Orixás. Além de homenagear os ancestrais, as Obrigações de Egun também servem para descarregar as cargas negativas.

Candomblé – De origem africana, entende que a vida continua por meio da força vital imperecível de cada um: o ori, que volta a reencarnar em outro corpo da mesma família. O rito funerário (axexé) começa após o enterro e pode durar dias; objectos pessoais do morto são quebrados e jogados em água corrente. A morte leva tempo para ser superada e mais tarde o ente que se foi interfere na energia do grupo ao qual esteve ligado.

Judaísmo – A mais antiga das religiões ocidentais fundamenta-se nas escrituras deixadas pelos profetas na Bíblia Sagrada. A vida é preparação para um mundo vindouro; a cremação é proibida. Judeus não velam mortos com caixão aberto, pois a exibição do corpo é considerada desrespeito. Os homens são enterrados com seu xale de oração. Durante a cerimonia, o rabino discursa e os filhos homens recitam oração (kadish). O luto judaico acontece em três fases: shivá – sete primeiros dias; shloshim – período de 23 dias; avelut – estende-se até o primeiro ano após o falecimento, porém só deve ser observado pelos filhos.

Islamismo – Pertence à tradição dos profetas bíblicos, mas tem Maomé como último grande profeta. Vê a morte como passagem para uma próxima etapa; no Juízo Final acontecerá a ressurreição, todas as almas retornarão a corpos jovens e sem defeitos. A cremação voluntária é proibida. O caixão serve apenas para transportar o corpo até o cemitério; deve ser simples. O velório apenas serve para cumprir a burocracia ou aguardar um parente. Quanto antes for realizado o sepultamento melhor. Não há luto; para o islamita a morte deve ser vista como natural.

Hinduísmo – Crê na reencarnação. A vida na terra é parte de um ciclo eterno de nascimentos, mortes e renascimentos. A pessoa pode levar uma vida voltada para o bem e se libertar desse ciclo. O cumprimento correcto do drama (dever prescrito) pode levar o praticante à mukti (liberação) do karma (ciclo repetitivo de nascimento e morte). Os mortos são cremados em uma pira aberta, acesa pelo filho mais velho do falecido.

Outra hora retomamos o assunto e vamos abordar alguns costumes bizarros relacionados aos rituais fúnebres, como em algumas localidades do interior do Brasil em que é comum “se beber o morto”. Ou seja, tomar uma aguardente enquanto o corpo é velado na sala. Isso é tão normal que em muitas casas das zonas rurais há sempre garrafas de pinga da boa guardadas para isso. Ou se pagar pelas chamadas “carpideiras”. Mulheres contratadas para chorar pelo morto, ou mesmo violeiros, sanfoneiros e repentistas.

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