Por Marco Barone

O poeta Mário de Andrade, um dos maiores de nosso idioma, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, tinha uma estreita relação com a rua em que morou, a Lopes Chaves, na Barra Funda. Chegou a pedir em um de seus poemas, “Quando eu morrer quero ficar”, “…Na Lopes Chaves a cabeça esqueçam” (aliás, esse poema é lindo e vale uma leitura). Citou o endereço em que morou em diversas obras, mas nunca soube quem foi Lopes Chaves e revelou isso também em um poema. Viveu na casa que muitas décadas depois de sua morte virou uma casa de cultura, mas nunca ficou sabendo quem foi Lopes Chaves.

Passamos todos os dias por muitas ruas, praças e avenidas na cidade e não fazemos ideia quem sejam essas pessoas que receberam a homenagem póstuma (póstuma sempre, pois em São Paulo há uma lei que não permite que logradouros recebam nomes de pessoas vivas). Xeretando os arquivos da Prefeitura (abertos na internet) e fazendo pesquisas descobrimos alguns nomes interessantes e quem foram essas pessoas.

Optamos por não procurar nomes famosos, como Pedro Álvares Cabral, pois, imaginamos, que são de conhecimento público (esperamos!!!), nem nomes que não sejam próprios, como Ipiranga. Pode ser que o leitor amigo até saiba quem são, mas a grande maioria não tem nem ideia de quem sejam esses nossos ilustres desconhecidos. Vamos lá, pois, como sempre defendemos, são informações que poderão ser usadas quando faltar assunto.

Muitos dos que lerem vão pensar em outros nomes que não estão nessa lista. Para os que tiverem curiosidade, há um site da Prefeitura que conta a história das pessoas que dão nomes às ruas: www.dicionarioderuas.com.br. Ele é bem completo e é difícil não ter o logradouro que se procura. Vale uma visita.

Avenida Bernardino de Campos (Paraíso) – O doutor Bernardino José de Campos Junior nasceu em Pouso Alegre, Minas Gerais, em 1841, e veio para São Paulo para se matricular, em 1859, na Faculdade de Direito, bacharelando-se em 1863. Foi deputado da Assembleia Provincial, primeiro chefe de polícia da República na cidade de São Paulo, deputado do Congresso Constituinte, presidente do Estado de São Paulo, ministro da Fazenda de Prudente de Moraes, e senador Federal.

Rua Vergueiro (Liberdade) – Nicolau Pereira de Campos Vergueiro nasceu em Bragança, Portugal, em 1778. Bacharel em leis pela Universidade de Coimbra, tomou o Brasil como pátria adotiva estabelecendo-se em São Paulo com banca de advogado. Foi também fazendeiro e introduziu o trabalho livre do colono europeu pelo sistema de parceria. Representou a província de São Paulo nas Cortes portuguesas em 1822, na Constituinte brasileira em 1823 e na primeira legislatura. Foi senador por Minas Gerais e ocupou as pastas do Império, da Justiça e Fazenda. Foi membro da regência provisória que se seguiu à abdicação de D. Pedro I, diretor do Curso de Direito de São Paulo de 1837 a 1842, um dos primeiros membros do governo paulista.

Rua Domingos de Moraes (Vila Mariana) – Domingos Correia de Morais, nasceu em Tietê, em 1851. Foi um engenheiro civil e. Formou-se em 1877 na Universidade Cornell (Estados Unidos da América). Com a Proclamação da República, inicia sua carreira política, tendo sido vereador da capital, deputado estadual por dois mandatos, senador estadual e vice-presidente do estado. Assumiu a presidência de São Paulo por alguns meses, de 13 de fevereiro a 3 de julho de 1902 e também por alguns meses em 1903, quando passou o governo de São Paulo para Bernardino de Campos.

Avenida Senador Queirós (Centro) – Francisco Antonio de Souza Queiroz, Barão de Souza Queiroz, nasceu em São Paulo, Capital, em 1806. Muito jovem ainda, seguiu para Portugal a fim de estudar em Coimbra, sendo obrigado a retornar ao Brasil logo depois , em vista do falecimento do seu pai. Herdeiro de grandes propriedades agrícolas, teve de dedicar a elas sua atenção, daí por diante. Dotado de grande tino administrativo e gozando de prestígio político, foi eleito vereador à Câmara Municipal de São Paulo, deputado provincial e geral na 6º legislatura de 1845 a 1847 e senador por São Paulo em 1848. Em 1874, por decreto de 14 de outubro, recebeu o título de Barão. Pertenceu ao Instituto Histórico Brasileiro.

Avenida Alcântara Machado (Mooca) – José de Alcântara Machado de Oliveira tinha os pseudônimos: Pero Peres e Álvaro Álvares. Nasceu em Piracicaba, em 1875. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1894, onde foi professor, vice-reitor e diretor. Foi vereador, deputado estadual e senador estadual. Ocupou a cadeira nº 1 da Academia Paulista de Letras, cadeira esta criada por seu pai e que tinha como patrono o seu avô, Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira.

Avenida Marechal Tito (São Miguel Paulista) – Josip Broz Tito nasceu em Zagreb, Croácia. Foi estadista iugoslavo, patriota revolucionário eleito primeiro ministro e presidente da Iugoslávia a partir de 1953. O marechal Tito foi a figura que conseguiu manter unida a Iugoslávia que, após a sua morte, em 1980, se esfacelou.

Avenida Rubem Berta (Moema) – Nascido em Porto Alegre, em 1907, Rubem Martin Berta fez seus primeiros estudos naquela cidade e formou-se contador. Aos 20 anos ingressou na VARIG, setor de contabilidade. Exerceu as funções de correspondente, despachante, contador, secretário da diretoria e diretor-suplente e presidente. Rubem Berta dedicava-se também à agricultura. Em 1958, foi convidado por Juscelino Kubitschek para ocupar o cargo de Ministro da Agricultura. Rubem Berta foi o pioneiro da aviação comercial no Brasil.

Avenida Brás Leme (Santana) – Brás Esteves Leme foi um bandeirante paulista do século XVIII. Realizou desde 1715 expedições nas Minas Gerais em busca de esmeraldas, tendo aberto diversas lavras e recebido títulos por seus achados. Em sua memória foi batizada uma importante avenida na zona norte de São Paulo. Entre 1690 e 1700 formou-se o povoado de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba, confirmada vila em 1705, exercendo o cargo de alcaide-mor.

Avenida Zaki Narchi (Vila Guilherme) – Zaki Narchi nasceu na cidade de Homs, Síria, em 15 de fevereiro de 1883. Foi um dos primeiros imigrantes árabes a eleger São Paulo como sua terra. Veio para o Brasil em 1908. Foi comerciante em Santana.

Avenida Francisco Matarazzo (Barra Funda) – Empresário brasileiro de origem italiana, nasceu em 1854 na cidade de Castellate, província de Salerno. Chegou ao Brasil em 1881 e instalou-se inicialmente em Sorocaba, onde, dedicou-se inicialmente ao comércio. Fundou uma fábrica de banha de porco e introduziu a embalagem de lata, substituindo as de madeira. Em 1892, criou a empresa Irmãos Matarazzo na companhia dos irmãos Giuseppe e Luigi. Estavam lançadas as bases do que viria a ser o maior complexo industrial da América do Sul: as “Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo”. Em 1917, já um consagrado e rico industrial, Francisco Matarazzo recebeu o título de Conde, do Rei italiano Vitório Emanuel III. Francisco Matarazzo faleceu em 1937.

Rua Clélia (Lapa) – Clélia, de origem albânica, descendente dos reis de Albânia, foi entregue como refém a Porsenna, rei de Clusium no ano de 507 A.C.. Fugiu atravessando o Tibre com os seus companheiros, e chegou a Roma. O cônsul mandou-a de novo à Porsenna, cheia de presentes e permitindo-lhe levar alguns de seus companheiros. Clélia teve em Roma uma estátua equestre.

Ah, para os curiosos que leram os primeiros parágrafos e nos desancaram por não falar logo, Lopes Chaves, ou melhor, doutor Joaquim Lopes Chaves nasceu em Jacareí, 1833. Matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Foi vereador em Taubaté, deputado na Assembléia Geral Legislativa, deputado provincial, deputado federal, senador estadual e, finalmente, como senador federal.

O poema no qual Mário de Andrade confessa sua ignorância é “Lira Paulistana” ou “Paulicéia Desvairada”, que diz o seguinte: “Nesta rua Lopes Chaves / Envelheço, e envergonhado / Nem sei quem foi Lopes Chaves”. É pena que Mário de Andrade nasceu em uma época que nem se sonhava com o Google…