Estreiamos hoje uma nova sessão, o Matraca Aberta. Para quem curte o blog e tem algo a dizer. Para quem sempre quis escrever sobre cultura, mas não tinha onde postar o texto. Se você quer comentar sobre uma peça ou filme, escreva um texto e envie para nós! Nosso e-mail é: matraqueiros@gmail.com.

Por Vitor Gonçalves (@vitormgoncalves)

Eu sempre detestei o Kanye West.  Inicialmente, o motivo foi meu desgosto por rap, e ele é um dos mais imponentes. Imponente até em achar que sua persona é a mais influente e que sua opinião é a mais absoluta. É difícil ter alguém que não conheceu essa sua característica no episódio Taylor Swift. Foi bombástico. Ele se disse arrependido, mas até que nível isso era verdade, não se sabe.

Sendo assim, não entendia o porquê de tanta falação sobre ele. Até sites bem-conceituados, como a Pitchfork, colocam Kanye West lá em cima. Seu álbum My Beautiful Dark Twisted Fantasy ganhou nota 10 deles. Pra servir de comparação, o Ok Computer do Radiohead ganhou 10 e foi um álbum que marcou o rock alternativo de uma forma especial, com sonoridade e qualidade artística únicas. Mas o Kanye West… Ou eu é que sou muito inflexível, ou eles estão muito errados, pensava eu.

My Beautiful Dark Twisted Fantasy

Foi então que decidi, de uma vez por todas, ouvir esse bendito … Fantasy. O resultado não podia ter sido mais inesperado: praticamente um tapa na cara. Depois de ouvi-lo na íntegra, sem interrupções, comecei a entender como funciona o som desse bendito e minha cabeça automaticamente começou a fazer relações mil entre esse álbum e… a arte contemporânea.

Kanye West sabe como construir uma música. As letras não são algo de apetecer a todos, com essa frequente mania de ostentação entre frases de efeito e rimas poderosas. Certa vez, ele disse que tinha como objetivo ser o maior artista de todos os tempos, mas que isso seria um pouco difícil porque ele não sabe nem cantar e nem dançar. Daí vem sua fixação por Michael Jackson, que podia fazer tudo isso e ainda parecer fácil. Mas enfim, o rap acabou sendo uma saída, além de ele saber aproveitar os talentos que o cercam.

APROVEITAR é a palavra-chave para o êxito de My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Kanye West chamou Jay-Z, Rihanna, Kid Cudi, entre outros. E Justin Vernon, do Bon Iver. Ahhhh, Justin Vernon. Incrível como o talento dele ajuda as músicas de Kanye West de maneira especial. Dizem que Kanye West é perfeccionista e fica no controle de tudo. E não tem barreiras. Depois de ter feito rimas e mais rimas, eis que surge um LINDO interlúdio com piano e cordas, antecedendo All of the Lights. Essa, aliás, tem um começo de arrepiar com toda aquela pompa marcial, seguida por incontáveis sons de percussão e sintetizadores. Tudo realmente muito pomposo. O começo de Runaway com aquelas notas esparsas no piano podem até enganar os desavisados, achando que Mr. West está optando pelo minimalismo. Nunca. A fantasia dele não tem espaço pra economia sonora.

All of the Lights serve como exemplo de como ele sabe utilizar dos talentos que dispõe. É inegável que a Rihanna tem um vozeirão. Os instrumentos, ele pode não ter tocado, mas soube muito bem criar algo pra eles. O início de Dark Fantasy também mostra Kanye West dispondo muito bem das vozes convidadas. Lost in the World tem Justin Vernon expressando muito mais em auto-tune do que muitos não expressariam se chorassem enquanto cantassem. Kanye West, numa comparação muito atípica, parece Marcel Duchamp. Sim, aquele do mictório e da roda de bicicleta. Num questionamento sobre arte marcante, Duchamp dispôs de tais coisas e criou obras de arte. Afinal, o que é isso, arte? A diferença é que Kanye West torna isso comercialmente valoroso e esteticamente interessantíssimo.

Não sei se a comparação ficou clara. Se não, pensemos no Banksy. A street-art ganhou um novo fôlego com ele. Uma de suas obras envolve uma cabine telefônica, daquelas inglesas e vermelhas. Ele pegou uma dessas na rua, cortou ao meio (ele e sua equipe), soldou de uma forma propositalmente torta e colocou no mesmo lugar onde estava. Essa era sua obra. Ele não produziu aquela cabine, nem a possuía. Mas fez arte com ela. Kanye West toma posse do talento de artistas (sejam eles cantores ou instrumentistas) e os manipula a favor de suas ideias.

Em So Apalled, parafraseando Harvey Dent em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, Jay-Z diz que ou você morre um herói ou vive tempo suficiente para ver você mesmo se tornar um vilão. Ainda não decidi se Kanye West é um vilão, mas certamente, no meu mundo, ele viveu tempo suficiente pra se tornar um artista.

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