Mais um dia de Matraca Aberta \o/. Este domingo temos participação especial do Alex, blogueiro de cinema que cuida do site Re-Enter!

Por Alex Luiz

Brian De Palma é um diretor de homenagens. Seus primeiros filmes eram referências diretas a seu ídolo, Alfred Hitchcock. Depois, quando começou a fazer filmes maiores, suas colagens eram de alguns filmes noir (como em sua refilmagem do clássico Scarface e de Os Intocáveis) e ainda com alguns elementos do Mestre do Suspense. Porém, para De Palma dirigir um filme inteiramente noir, a espera foi longa. Apenas em 2006 o cineasta realizou o feito, com a adaptação de um livro de James Ellroy, o mesmo autor de Los Angeles – Cidade Proibida.

E, Dália Negra não é apenas um filme-homenagem. As características do gênero são tão evidentes, que o filme é mais noir que o noir.

O roteiro mostra dois policiais de Los Angeles. Lee Blanchard, o Mr. Fire (Aaron Eckhart) e Bucky Bleichert, Mr. Ice (Josh Hartnett), nas horas vagas, pugilistas em lutas clandestinas, e quando em serviço, parceiros. Ao longo da produção, as diferenças entre os dois fazem a investigação do assassinato da atriz Elizabeth Short (história real, usada como base para o desenvolvimento da história)  ir por caminhos diferentes para cada um. Enquanto Blanchard parece emocionalmente motivado a encontrar o assassino, para Bleichert a coisa é um pouco diferente. Sua motivação está ligada a sua carreira policial. No meio de tudo isso, há o romance proibido, entre Mr. Ice e a esposa de Mr. Fire, vivida por Scarlet Johansson.

Durante todo o filme, narrado pelo personagem de Hartnett, a sensação de pessimismo é enorme. As características obscuras da personalidade humana são tantas que o diretor “diz” ao espectador algo como: “não espere um final feliz aqui”. Como em Chinatown, não há espaço para a beleza da alma. Tudo é corrupto, até mesmo quem, à primeira vista parecia um poço de honestidade. Aliás, as comparações com o filme de  Roman Polanski não param por aí. As duas histórias envolvem famílias que foram importantes para o desenvolvimento de Los Angeles, levando o espectador à conclusão de que a cidade não é corrupta por acaso. Sua história permitiu isso.

A direção de De Palma é certeira. Sua câmera movimenta-se com a graciosidade que poucos conseguem alcançar. Durante todo o longa, os personagens são mostrados de forma a parecerem observados por alguém. A famosa “visão do diretor” criada por Hitchcock é usada aqui para dar o tom que o cineasta quer passar. Seus cortes são precisos. Planos sequência, tão incomuns hoje em dia, são filmados com maestria por quem sabe do assunto. Não há dúvidas da dificuldade em se mostrar uma cena ou outra sem truques de edição, e são poucos o que conseguem fazer isso. Felizmente, Brian De Palma é um desses diretores. Assim como a maioria de seus filmes, Dália Negra tem a aura de homenagem, mas com os toques pessoais que o fizeram ser o diretor renomado de hoje. Não é exagero dizer que observar a montagem do filme é como ter uma aula de cinema. Principalmente pelos filmes atuais optarem por uma edição rápida e vertiginosa, deixando de lado a elegância das histórias antigas. E, num filme em que a história é tão corrupta, ser elegante na técnica é uma opção que reverencia uma época e um gênero. E com De Palma, o noir está vivo. Longa vida ao noir.

A história por trás da história – O assassinato de Elizabeth Short

James Ellroy era filho de um policial de Los Angeles. Talvez daí venha sua predileção por  histórias envolvendo não só a cidade, mas também sua tropa de detetives e patrulheiros. Ellroy ficou famoso por escrever uma quadrilogia de romances policiais, dos quais pertecem Los Angeles – Cidade Proibida e Dália Negra. Esse último é a história que “assombrou” a cabeça do autor em sua juventude. O nome foi dado a atriz Elizabeth Short quando encontrada morta. É uma referência ao filme Dália Azul. A história marcou Ellroy porque seu pai esteve envolvido na investigação do caso, nunca solucionado. E também porquê sua mãe também havia sido assassinada, encontrada em um terreno, tal qual a jovem atriz.

Short era uma garota em busca da fama em Hollywood. Com 22 anos, foi brutalmente assassinada. O crime, com requintes de crueldade, chocou Los Angeles. A moça fora encontrada com um enorme corte na boca, como um sorriso de orelha a orelha. Seu corpo, dividido em dois. Seu sangue, drenado. A obsessão de Ellroy o fez pesquisar a fundo o caso. Recortes de jornal, relatórios da polícia. Tudo isso, unido a sua imaginação, criou uma história cheia de referências biográficas divididas pelos dois personagens centrais do livro. Para, de certa forma, exorcizar seus fantasmas passados, James Ellroy continuou escrevendo histórias com altas doses de experiências próprias, vividas em seus anos de depressão, após o assassinato de sua mãe, que também rendeu um romance.

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