Por Marco Barone

Foto: Ana Paula Morales

Um programa mais do que agradável. No último sábado (21) fui assistir ao show de Oswaldo Montenegro, promovido pela Rádio Nova Brasil, no Tom Jazz. Fui acompanhado da minha esposa, Ana Paula. Ela não é muito fã de shows de MPB. Sempre foi muito mais ligada às músicas e grupos americanos românticos. Mas como era uma ocasião diferente, ela foi. Ainda mais que teríamos uma noite de casal, com o filho dormindo na casa dos avós.

O que deu para notar é que a desconfiança foi sendo substituída pelo prazer de ver um poetaem ação. Aliás, a poesia de Oswaldo Montenegro foi o que mais emocionou. O formato do show deu espaço para que ele se soltasse mais. Ele, um violão, um piano e o público. O tipo de show que se adora. E feito para se curtir na boa. Oswaldo mesmo disse durante a apresentação que queria fazer um show assimem São Paulohá tempos.

O lugar, um bar, lembra muito os lugares que eu gostava de frequentar na minha solteirice. Nunca fui muito chegada a lugares cheios, abarrotados de pessoas. Sempre preferi os barzinhos de voz e violão. Sempre havia tempo para curtir o cantor, conversar, paquerar e namorar. E foi isso que revivi no show. E que a Ana Paula viveu.

O show, sem as pirotecnias que os grandes eventos pedem, é feito para fãs e não fãs. Quem conhecia o artista cantou junto (como eu) e quem não conhecia (como a Ana Paula) pode ouvir com prazer as letras e músicas que ele apresentou em pouco mais de uma hora de apresentação.

E o público foi parte do show. Oswaldo conversou conosco. Contou histórias, revelou segredos, confessou que havia esquecido a música de uma das canções que ele apresentou, mas que isso não seria problema, pois a letra valia a pena. E valeu.

Lembro que há muitos anos já havia assistido um show dele. Se não me engano, foi no Centro Cultural São Paulo, ou em um desses locais que estudantes de faculdade frequentavam no final da década de 80. As experiências foram diferentes. Naquele primeiro, fui com um grupo que conhecia e cantava as músicas junto com ele. Dessa vez, eu mesmo não conhecia boa parte das obras. Confesso que, com os anos, passei a não acompanhar sua carreira e me limitar ao que as emissoras de rádio tocam – e elas tocam muito pouco de Oswaldo Montenegro. A Nova é uma das poucas exceções. Além disso, minha companhia, a Ana Paula, conhecia, se muito, duas ou três músicas.

Ela se maravilhou quando entrou a instrumentista Madalena Ribeiro Salles, a Madá, ex-mulher de Oswaldo. Ela, na flauta, andando no meio do público acompanhando o cantor foi demais. Demais também foi quando ele declamou “Metade” (de onde tomei a liberdade para criar o título deste texto). Madá foi tocando em cima da poesia declamada pelo artista. Emocionante.

Enfim, o show que seria um pretexto para sair de casa sem o filho e curtir uma noite de casal, foi um excelente começo de sábado, que teve continuação, mas isso não cabe aqui…

O que posso dizer, usando a inspiração de Oswaldo Montenegro, é que a metade do casal gostou do show e a outra metade, também.

Metade – Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.